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A singularidade da solidão lésbica

Crescer-se mulher é assustador; crescer-se mulher lésbica ainda é mais.

Quando nós, raparigas, gostamos de outras raparigas, está tudo bem. Está tudo bem quando queremos dar a mão àquela amiga mais próxima, quando queremos contar-lhe as sardas na cara e quando arrancamos uma flor do jardim para lhe oferecer. Está tudo bem quando nos casamos a fingir no recreio; está tudo bem quando, na adolescência, olhamos durante alguns segundos a mais para os lábios dela, como se investigássemos atentamente o seu aspeto, a cor, a forma que têm. Está sempre tudo bem quando a nossa atenção se desvia e imaginamos como seria tocar-lhe com as pontas dos dedos, como seria beijá-la de outra maneira.

Está tudo menos bem quando nos olhamos ao espelho e percebemos que o difícil não é gostar de raparigas, mas o facto de não gostarmos de rapazes. Na verdade, ninguém nos educa para esta súbita consciencialização que nos cai nos ombros com o peso de um pedregulho. E, num mundo invariavelmente masculino, imaginar uma vida emocionalmente independente dos homens é tido como um absurdo.

Quando gostamos de raparigas e o sabemos, ninguém nos prepara para os olhares de lado, como também ninguém nos prepara para o quão estranhas nos sentimos quando os pensamentos escapam.

Na altura em que mãe da nossa melhor amiga nos proíbe de estar com ela porque, “o diabo seja cego, surdo e mudo”, lhe havemos de pegar a “lesbianice”, o pedregulho nos nossos ombros desaparece misteriosamente e é substituído por um vazio enorme que nunca antes tínhamos conhecido: a solidão de quem não é aceite

A solidão lésbica não advém de uma vida solteira. Antes fosse. Mas a verdade é que, mesmo num relacionamento com outra mulher, este vazio enorme não se dissipa; ele adormece momentaneamente, para nos voltar a aterrorizar quando menos esperamos.

Ser-se lésbica é uma experiência permeada de isolamento. Como se em lugar algum do mundo sentíssemos pertença ou igualdade. Aprendemos a controlar-nos como ninguém o faz, porque nunca vimos alguém igual a nós e queremos ser respeitadas; controlamo-nos porque queremos crescer inteligentes e bonitas, simpáticas e doces. Ser-se lésbica é perder tudo isto.

Depois, na idade adulta, a nossa melhor amiga chora ao nosso colo e, entre lágrimas e palavras balbuciadas, conta-nos, de coração partido, que o namorado perdeu o interesse nela. “Sabes”, diz-nos ela ao limpar as lágrimas com as costas da mão, “nunca mais o vou ver. É como quando a minha mãe me disse que nunca mais podia estar contigo”.

Ao ouvir estas palavras, temos vontade de gritar, mas não o fazemos. Em vez disso, anuímos com a cabeça e oferecemos o nosso melhor sorriso amarelo, sem mostrar os dentes. Sabemos que a nossa dor não é a mesma, que a dela não é motivada pelas mesmas razões e que, por mais triste que a situação seja, eles puderam aproveitar momentos de felicidade na praia, no parque, no cinema, num quarto. Nós contentamo-nos com a imaginação.

Ser-se lésbica é descobrir que somos nojentas em comparação com os homens gays. No último ano, a internet vibrou com a obsessão na série Heated Rivalry, da HBO; não apenas os homens da comunidade queer, mas muitas mulheres heterossexuais que se mostraram completamente vidradas na história de amor e erotismo entre as personagens. Se as séries com mulheres lésbicas (como Killing Eve ou First Kill) sonhassem em ter uma pequena fatia deste apoio, estariam muito bem.

Mas não é esse o caso. São inúmeras as histórias lésbicas que não conhecem um final feliz. Na esmagadora maioria dos casos, o enredo acaba na morte de uma personagem, em cancelamentos sem qualquer explicação, ou, ainda, em contos fatídicos onde o sofrimento parece servir para punir mais do que para ensinar.

Muitas vezes ouço, de forma bem intencionada, que devemos viver livremente e não dar importância ao que os outros dizem, mas não me parece que querer estar em público com a mesma dignidade das pessoas heterossexuais seja uma batalha que devemos esquecer. Por isto, vivo livremente lésbica, e tento espalhar, no meu dia-a-dia, a mensagem do quão maravilhoso é ser-se como sou.

Escrevo este texto na esperança de que a nossa comunidade cresça em visibilidade, porque o mundo é tão nosso como de todos os restantes; e, se me é permitida a liberdade criativa nesta conclusão, escolho alterar a célebre frase de John F. Kennedy: ask yourself not what a lesbian can do for you, but what you can do for a lesbian.

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