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Phoebe Bridgers veio ao mundo para nos arrebatar

Num panorama musical que tem ficado à superfície das emoções das novas gerações, Lost Weekend, o mais recente álbum de Phoebe Bridgers, quebra o molde e dá um cunho de intensidade poética real à indústria.

Seis anos depois do lançamento do seu aclamado álbum de estúdio, Punisher, Phoebe Bridgers regressou montada numa autêntica bola de destruição (sim, tipo a Miley Cyrus em Wrecking Ball) para nos relembrar que, no que toca à música pop, a introspeção e o espelhar da realidade têm ficado muito aquém do que se esperava.

Num cenário pós-Covid, o mundo da música pop conheceu uma espécie de reino paralelo, impulsionado por Folklore, de Taylor Swift, onde se procurava estabelecer com firmeza a desilusão e o descontentamento embebidos na nostalgia das audiências mais novas. Por isso, a música, nessa altura, queria unir o escapismo que os ouvintes procuravam e o realismo distópico que se vivia. Nesse sentido, álbuns como Folklore e Evermore, de Taylor Swift, Unreal Unearth, de Hozier, The Record, de boygenius, Stick Season e The Great Divide, de Noah Kahan, ou Brat, de Charli xcx, entre outros, desenvolveram bem o tom padecente de uma geração que não tinha (nem tem) uma visão particularmente colorida do seu futuro.

Porém, a meio do caminho interessante que se estava a delinear, a indústria voltou-se para a necessidade do fenómeno viral por forma a fazer render os seus hits. Naturalmente, a introspeção, por vezes difícil de mastigar, foi sendo diluída em letras mais simples, melodias mais mecânicas e sentimentos mais generalizados.

É claro que, nos últimos anos, existiram exceções a essa regra. Alguns artistas tiveram a coragem de trazer a diferença para palco e, mesmo assim, conquistar a crítica e a audiência — Debí Tirar Más Fotos, de Bad Bunny, e LUX, de Rosalía, são exemplos perfeitos. Ainda assim, a característica da música que oferece aos ouvintes um espelho onde se podem reconhecer acabou por ficar de lado, quer pelo afastamento da realidade dos artistas, quer pela falta de interesse dos estúdios.

Lost Weekend, um álbum de 16 faixas, cada uma mais poderosa do que a outra, veio trazer a música indie de volta à terra. Se, já em Punisher, Bridgers foi proclamada a voz de uma nova geração do folk e do emo-indie americano, com a sua capacidade decadentista aplicada à atualidade citadina, neste álbum a cantora reforça o seu lugar e explica por que razão não foi substituída nos seis anos em que esteve ausente de projetos a solo: a sua poesia, com pitadas de humor negro, é inconfundível e, até agora, de difícil reprodução noutra voz ou noutro intérprete.

Crying in a suit and tie, but you should see the other guy

Só este verso de abertura, escondido sob uma distorção de voz maximalista, desperta de imediato para aquilo que Bridgers consegue fazer melhor: dizer tudo em poucas palavras, forçando o ouvinte a interpretar o seu humor metafórico. Com esta piada, percebemos que o funeral do pai, com quem tinha uma relação complicada, é o mote de uma longa jornada introspectiva que nos é revelada através de metáforas e aforismos.

Com influências claras de Fiona Apple, Elliott Smith, Damien Jurado, Taylor Swift, boygenius (banda a que pertence) e do seu próprio eu passado (a interpolação de Graceland Too na faixa Liberty Tree acaba por ser, em si mesma, um aforismo auditivo que não deve ser ignorado), Bridgers junta as vozes do decadentismo da nova geração para nos falar sobre o luto e sobre as diferentes formas de declínio que se vão misturando com picos de esperança aleatória. Evidencia disto é o tema Bobby que deixa de lado a ironia que marcava as suas letras mais românticas (em The Governor’s Waltz ainda vai dando ares de sua graça), e mostra a realidade de onde nascem a esperança e a paz.

Já os créditos das faixas, conhecendo o background de Bridgers, acabam também por contar uma história. A presença de Bo Burnham (Inside) em grande parte da composição do álbum revela-nos mais sobre a dedicatória invisível que figura sempre nas músicas de Bridgers do que outra coisa. Para além disso, as colegas da banda boygenius, Julien Baker e Lucy Dacus, juntaram-se a Bridgers na faixa Haunted que, numa discussão séria sobre favoritos, poderá muito bem sobressair-se.

Bridgers é, por tudo isto, uma força improvável na forma como escreve e descreve cada um de nós, iluminando lugares no nosso interior que ainda ninguém tinha vislumbrado na música moderna. Mas, acima de tudo, a artista é um cometa poderoso que está mais do que capaz de iluminar um céu coberto de estrelas de luz esbatida.

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