Em Portugal, há cem anos, uma mulher escreveu sobre desejo e amor entre mulheres.
Judite Teixeira nasceu em 1880 e morreu, em Lisboa, no ano de 1959. A sua vida e obra são ainda pouco conhecidas, apesar de ter desempenhado um papel importante na literatura portuguesa das primeiras décadas do séc. XX. A sua poesia, marcada pelo erotismo e uma estética decandentista, abordava temas que eram considerados controversos na sociedade da época, entre eles o desejo e a sexualidade entre mulheres.
A sua história é particularmente relevante para compreender a relação entre a literatura, género e a sexualidade em Portugal durante a época da Primeira República.
É também um exemplo de como algumas escritoras foram afastadas do cânone literário devido ao conteúdo da sua obra e à forma como desafiaram as normas sociais do seu tempo.
Judite Teixeira começou a publicar num período de transformação cultural e social. A Primeira República, instaurada em 1910, trouxe consigo novas discussões sobre a modernização da sociedade portuguesa: as mulheres começaram a ter uma presença mais visível na imprensa e na literatura, embora continuassem a enfrentar muitas limitações sociais.

Na década de 1920, existia um número significativo de mulheres a publicar poesia em Portugal. Algumas chegaram a ver os seus poemas publicados em antologias e revistas literárias, mas a sua presença não significou necessariamente reconhecimento. A literatura escrita por mulheres era, muitas vezes, considerada secundária em relação à produção masculina, e muitas obras acabaram por desaparecer da história literária portuguesa.
O caso de Judite Teixeira foi ainda mais complexo.
A autora não se limitou a escrever sobre sentimentos ou relações amorosas dentro dos limites considerados aceitáveis para uma mulher à época. Pelo contrário, a sua poesia apresentava uma linguagem erótica e abordava diretamente o desejo entre mulheres. Esta escolha colocou-a numa posição bastante vulnerável. A mulher que escrevia sobre a sexualidade já desafiava as normais sociais; a mulher que escrevia sobre o desejo por outras mulheres ultrapassava ainda mais os limites estabelecidos.
A obra de Judite Teixeira surgiu num período associado ao modernismo e às mudanças estéticas que marcaram a arte em Portugal.
Para além deste movimento defender a renovação artística e a rutura de convenções anteriores, a sexualidade e o erotismo passaram também a ocupar um espaço mais evidente na literatura.
No entanto, havia limites para esta liberdade. Embora os escritores modernistas pudessem abordar temas considerados controversos, as mulheres continuavam sujeitas a expectativas sociais diferentes.
A representação do corpo e da sexualidade era maioritariamente feita a partir de uma perspectiva masculina, enquanto que a mulher assumia o papel de sujeito desejado e enfrentava maior condenação social.
A poesia de Judite é importante porque contraria essa lógica. Nos seus poemas, a mulher é aquela que deseja e que sente prazer, e não apenas um objeto de observação por outrem.
Em 1922, Judite Teixeira publicou Decadência, um livro de poemas que se tornou rapidamente alvo de críticas. Depois, no ano seguinte, publicou Castelo de Sombras, duas obras que apresentam uma poesia demarcada pelo decadentismo e grande intensidade sensual.
Um dos poemas mais conhecidos de Decadência é A minha amante, no qual a autora escreve:
Dizem que eu tenho amores contigo!
Deixa-os dizer!…
O poema apresenta uma relação entre mulheres e uma voz poética que não demonstra preocupação em negar os rumores sobre a sua vida amorosa. A autora reconhece que existe uma sociedade que a julga, no entanto não aceita que esse julgamento determine a sua experiência.
Outros versos que evidenciam uma relação íntima entre mulheres:
Era já tarde e tu continuavas
entre os meus braços trémulos, cansados…
e eu, sonolenta, já de olhos fechados,
bebia ainda os beijos que me davas!
Volúpia, publicado mais tarde em Nua. Poemas de Bizâncio, de 1926
O escândalo em torno de Judite Teixeira ocorreu num contexto mais amplo de polémicas relacionadas com a sexualidade e a moral pública.
Entre o final de 1922 e o início de 1923, vários acontecimentos provocaram reações de setores conservadores da sociedade portuguesa. Entre eles, o chamado “baile da Graça” (realizado a 1 de fevereiro de 1923, num salão de uma escola no bairro da Graça. Foi uma festa privada na qual vários homens se mascararam e se vestiram de mulher. O evento terminou com a intervenção da polícia e a detenção dos participantes), a proibição da peça Mar Alto, de António Ferro, e a publicação de obras que abordavam a homossexualidade masculina.
Entre essas encontravam-se Sodoma Divinizada, de Raul Leal, e Canções, de António Botto.
A Liga da Ação dos Estudantes de Lisboa, presidida por Pedro Teotónio Pereira, mobilizou-se contra estas publicações e conseguiu com que as autoridades determinassem a sua apreensão. Decandência, de Judite Teixeira, foi incluído no mesmo processo.
Os três livros foram, assim, apreendidos e queimados, em março de 1923.
O caso de Judite Teixeira distingue-se também pela maneira como foi tratada, em comparação com Raul Leal e António Botto. Os dois escritores receberam apoio de figuras importantes da literatura portuguesa, incluindo Fernando Pessoa e José Régio.
Judite, pelo contrário, ficou praticamente sem apoio.

A diferença é significativa, porque embora os três autores tenham sido acusados de promover uma literatura considerada imoral, Judite enfrentou uma condenação enquanto mulher. A sua escrita sobre a sexualidade feminina foi entendida como uma transgressão particularmente grave.
Isto mostra como as normas sociais aplicadas às mulheres eram diferentes das que afetavam os homens. A literatura erótica masculina podia ser condenada, mas uma mulher que escrevesse sobre o próprio desejo era considerada uma ameaça moral aos papéis de género estabelecidos.
A reação à obra de Judite também demonstra como a critica literária se misturou rapidamente com ataques pessoais: em 1926, Marcelo Caetano, então ligado à revista Ordem Nova, referiu-se à escritora como “uma desenvergonhada chamada Judite Teixeira”. A expressão tornou-se representativa da forma como a autora foi tratada publicamente.
Judite Teixeira respondeu aos ataques em De mim, publicado em 1926. Nesta obra, que resultou de uma conferência, a autora refletiu sobre a sua arte e a moral. A sua resposta é importante dado que mostra que Judite não considerava a polémica uma razão para abandonar a sua escrita. Pelo contrário, interpretou a reação negativa como uma prova de que os seus poemas tinham conseguido provocar uma resposta no público.
E sorri — repito. Estavam satisfeitas as minhas ambições de artista.
Judite defendia que a arte deveria ter a capacidade de inquietar e provocar reflexão. Esta posição demarcou-se no contexto da época: a autora recusou a ideia de que a mulher devia aderir a determinados padrões de comportamento moral.
Apesar do escândalo, Judite Teixeira continuou a publicar. Em 1925, dirigiu a revista Europa, da qual foram publicados apenas três números. Em 1926, publicou Nua, Poemas de Bizâncio e, no ano seguinte, Satânia – Novelas.
A receção da sua obra continuou a ser negativa e os ataques públicos mantiveram-se. Depois deste período, Judite afastou-se progressivamente da sua vida literária.
A autora passou a ser pouco estudada e raramente incluída nas principais narrativas
sobre a literatura portuguesa do séc. XX, o seu nome ficou associado sobretudo ao escândalo de 1923, enquanto a sua produção literária foi sendo esquecida.
Podemos então analisar isto da seguinte forma: a década de 1920 foi marcada por uma forte presença de escritoras, mas muitas delas foram posteriormente excluídas do cânone. A literatura portuguesa do modernismo acabou por ser apresentada, principalmente, por figuras masculinas, e mulheres que participavam ativamente na vida literária foram sendo esquecidas. No caso de Judite, a sua escrita abordava temas que a sociedade portuguesa preferia manter fora do espaço público.
Judite Teixeira morreu viúva, sem filhos. Durante a sua vida casou-se duas vezes, tendo o primeiro casamento sido anulado em 1913, com a autora a ser acusada de adultério e abandono do lar; o segundo casamento deu-se em 1914, com Álvaro Teixeira.
Viveu fora de Portugal durante uns anos e morreu no dia 17 de maio de 1959 num apartamento em Campo de Ourique, Lisboa.
Escreveu sobre o desejo entre mulheres num período em que essa experiência raramente era representada por uma voz feminina. Os seus livros foram apreendidos e queimados, mas a sua poesia sobreviveu e continua a permitir-nos compreender uma parte da história literária e queer portuguesa que, durante muito tempo, foi forçada ao esquecimento.
