Durante muito tempo esquecida da história oficial do jornalismo em Portugal, Virgínia Quaresma (Elvas, 1882 – Lisboa, 1973) foi, literalmente, uma pioneira: a primeira mulher a exercer jornalismo no país de forma remunerada, a primeira repórter do Rio de Janeiro, uma das primeiras mulheres a licenciar-se em Letras e umas das vozes mais persistente do feminismo português da Primeira Républica.
Para além disso, viveu, sem nunca esconder do seu círculo mais próximo, uma vida romântica com mulheres. Este dado biográfico, embora alegado, só décadas após a sua morte começou a ser devidamente estudado e reconhecido.
Virgínia Sofia da Guerra Quaresma nasceu em Elvas, a 28 de dezembro de 1882, filha mais nova de Júlio Quaresma, oficial da cavalaria (mais tarde, general), e de Ana Guerra, doméstica na mesma cidade e descendente de africanos escravizados (esta descendência, nos últimos anos, tem alimentado discussões em torno do “feminismo negro” associado a Virgínia, no entanto, investigadores mais recentes consideram essa leitura pouco documentada). Os seus irmãos tinham fortes ideais republicanas: Eduardo e Carlos Alberto, militares como o pai, participaram ativamente nos acontecimentos de outubro de 1910.
Aos 18 anos decidiu não seguir o destino que a sociedade lhe tinha guardado e, em vez de se tornar doméstica, como as mulheres da sua altura, frequentou o Curso Superior de Letras na Faculdade de Letras de Lisboa, tornando-se unma das primeiras mulheres portuguesas, juntamente com Berta Gomes de Almeida, a obter esse grau académico.
O ano de 1906 marcou o arranque da sua intervenção pública. Integrou a Secção Feminista da Liga Portuguesa da Paz e o comité português da associação internacional La Paix et le Désarmement par les Femmes. Nesse mesmo ano, começou a colaborar no “Jornal da Mulher”, secção feminina do periódico republicano O Mundo, onde assinou textos a favor do direito ao voto, à lei do divórcio, à igualdade salarial e à independência financeira das mulheres casadas. Para além disso, não hesitou em denunciar o racismo e a violência doméstica na sociedade portuguesa.
Aos 24 anos, já dava entrevistas em que se assumia como “uma sincera convicta defensora do Ideal do Feminismo”. Ainda assim, Virgínia Quaresma distinguiu-se sempre por um feminismo de “moderada prudência”, facto que a colocou em rota de colisão com a corrente mais radical, Maria Veleda. Esta polémica, segundo o historiador João Esteves, resultou mais em ataques pessoais do que em confronto de ideais.
Apesar de ter sido convidada a inscrever-se, nunca chegou a ser sócia da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, preferindo manter, enquanto jornalista, uma independência que a levaria a entrevistar até dirigentes monárquicos, o que não caiu bem nos meios republicanos.
Entre 1907 e 1910, colaborou nas revistas Sociedade Futura e Alma Feminina e integrou a redação do Jornal da Noite, movendo-se depois para O Século e, a partir de 1910, para A Capital. Foi aí que se consolidou como a “repórter das vibrações”, como lhe chamou a revista ABC, conhecida pelo estilo de “reportagem intensa” que a levou a percorrer Lisboa inteira em busca de acontecimentos para noticiar: esteve em casa de Teixeira de Sousa no dia da implementação da República, conviveu com Afonso Costa e Bernardino Machado, e foi a primeira jornalista a saber, em primeira mão, da declaração de guerra da Alemanha a Portugal, em 1916.
Uma vida afetiva sem disfarces
Se a carreira jornalística de Virgínia Quaresma é hoje amplamente documentada, a sua vida amorosa, durante décadas, permaneceu praticamente silenciada nas páginas da História, apesar de Virgínia nunca ter sido, ela própria, discreta a esse respeito.
Como sublinha João Esteves, a homossexualidade de Virgínia Quaresma “nunca foi ocultada” e era um facto perfeitamente conhecido no seu círculo pessoal e íntimo ainda antes do Regicídio de 1908.
A relação mais estudada foi a que manteve com a poetisa Maria da Cunha (1872-1917), autora do livro Trindades. Divorciada em maio de 1912 (um ato de coragem numa sociedade que ainda via o divórcio com escândalo), Maria da Cunha partiu de Paris rumo ao Rio de Janeiro na companhia de Virgínia Quaresma, em setembro desse ano.
O investigador Fernando Curopos descreve a dupla como “o primeiro casal lésbico a chamar a atenção” na crónica social luso-brasileira da época. Isto não pode ser desligado da pressão social sobre as condutas homossexuais que, entretanto, em Portugal, eram penalizadas com pena de prisão pela Lei da Mendicidade de 1912.
As duas viveram no Rio, onde Maria da Cunha viria a colaborar no jornal A Época, em que Virgínia também trabalhava como repórter, até a poetisa se mudar para São Paulo, onde faleceu em 1917.
Na obra poética de Maria da Cunha, esse período de vida que partilhou com Virgínia transparece num homoerotismo discreto, mas presente, seja nos poemas sobre a beleza feminina do Rio de Janeiro, seja no conjunto de sonetos, O Beijo de Eunice, escritos em 1916, sobre um amor impossível entre mulheres.
Investigadores comoAnna Klobucka admitiram que estas escritoras portuguesas encontraram, no Brasil, uma liberdade afetiva que a sociedade portuguesa não permitia.
Após a morte de Maria da Cunha, Virgínia regressou a Lisboa, mas o Brasil voltaria a fazer parte da sua vida: nos anos 30, durante o Estado Novo, iniciou uma relação com Maria Torres, viúva do aviador Óscar Monteiro Torres, e mais tarde viveu no Rio de Janeiro com Valat Silva Passos, viúva do jornalista e colega Francisco da Silva Passos. Com Valat, viajou pela Europa e partilhou casa até à morte desta, em 1964. O falecimento, segundo relatos da época, fez com que Virgínia entrasse “em depressão profunda”.
As chamadas “inclinações sáficas” de Virgínia Quaresma (expressão da altura) foram, de resto, “sempre motivo de falatório”, ao ponto de a família ter pressionado a jovem jornalista, Maria Lamas, a abandonar o emprego na Agência Americana, que Virgínia dirigia, por causa da proximidade entre as duas.
Como reforça João Esteves, é importante evitar anacronismos: Virgínia Quaresma não fez da sua sexualidade uma bandeira de resistência. A sua independência económica é que lhe permitiu viver essa parte da vida sem constrangimentos formais, pois estava inserida numa elite social que a protegia de alguns dos preconceitos mais duros. A exclusão mais simbólica de que foi alvo aconteceu mais tarde porque, ao contrário das irmãs, não foi sepultada no jazigo de família, mas em campa rasa no Cemitério de Benfica.
Para além do jornalismo, Virgínia Quaresma deixou uma marca duradoura na história dos media portugueses enquanto empresária. Fundou, em 1918, a Atlântida, que foi mais tarde Escritório de Publicidade Latino-Americano, uma das primeiras agências de publicidade para jornais em Portugal. Foi também pioneira na chamada “publicidade redigida”, uma técnica que permitiu com que os jornais portugueses sobrevivessem à escassez de papel da Primeira Guerra Mundial.
Em 1921 fundou a agência telegráfica Latino-Americana, considerada a primeira agência de notícias de serviço internacional exclusivamente portuguesa, fundada com capitais nacionais, algo que é raramente associado ao seu nome, mas que a coloca entre os fundadores da indústria da comunicação em Portugal.
A biografia de Virgínia Quaresma também apresenta algumas ambiguidades, por exemplo: a antiga republicana e feminista aproximou-se, a partir dos anos 30, do Estado Novo, tornando-se admiradora de Salazar e defendendo posições coloniais e conservadoras que contrastaram com o ativismo da juventude. É este o retrato mais complexo que a investigação recente tem procurado recuperar: o de uma pessoa que, embora importante, não foi unidimensional. Porém, face às vicissitudes do seu tempo, Virgínia conseguiu construir um caminho profissional livre de amarras.
Morreu em Lisboa, na Rua do Salitre, a 26 de outubro de 1973, aos 90 anos, vítima de uma trombose cerebral.
No velório, estiveram apenas presentes a irmã e uma criada. Um desfecho estranho para quem foi, décadas antes, um dos perfis femininos mais falados do país.
Fontes:
- ARAÚJO, António. “Recordar Virgínia”. Faces de Eva, n.º 47.
- CRUZ, Eduardo da. “Maria da Cunha no Brasil: uma poetisa que amava mulheres”. Itinerários, Araraquara, n.º 58, jan./jun. 2024.
- ESTEVES, João. “Rememorando Virgínia Quaresma (1882-1973)”. Faces de Eva, n.º 47.
- “Virgínia Quaresma”. Wikipédia, a enciclopédia livre. [Consultado para enquadramento biográfico geral]
- SALES, José D. C.; MOTA, Susana. “Agência Latino-Americana: Um contributo para a história das agências de notícias em Portugal”. In: BAPTISTA, C.; SOUSA, J. P. (Eds.), Para uma História do Jornalismo em Portugal1. ICNOVA-Instituto de Comunicação da Nova, 2020.
